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Sexta-feira, Janeiro 13, 2006
Posted
2:54 PM
by ROBERTO MAXWELL
PELÍCULA NÃO-FILMADA # 92
O ULTIMO ATO
Amigos, sou um desnaturado, eu sei. Mas, escrevo para lhes dizer que o FRAGMENTOS DE PELICULAS NAO-FILMADAS acaba de falecer. Estou migrando para um outro endereco, com outro perfil e outras possibilidades tecnologicas.
BURAJIRU KARA KIMASHITA
robertomaxwell.blogspot.com
Ja ha dois posts lah, um de apresentacao e outro com o meu filme FOME, disponivel na integra para quem quiser assistir.
Aguardo voces por la.
Diga, pense, fale...:
Quarta-feira, Janeiro 11, 2006
Posted
8:26 PM
by ROBERTO MAXWELL
PELÍCULA NÃO-FILMADA # 91
AMEM, PASTOR OU A TIRANIA DOS AUTORES DE BLOG
A regra esta clara. Nao critique e voce sera visitado. Quem sabe recebera alguns comments. Com muita sorte se tornara uma celebridade da internet. E, a gloria, nesse momento voce podera tirar do seu blog o sistema de comentarios e estar acima do bem e do mal. Assim parece funcionar a cabeca de muitos blogueiros. Seduzidos pela possibilidade facil de publicar suas ideias, muita gente deixou de escrever nos seus caderninhos e migrou para a net. E, com a liberdade de ser seu proprio editor, assumiu o papel do imperador-bobao, aquele que manda cortar a cabeca de quem ousa contraria-lo. Donos de certezas inquestionaveis, passaram de bloqueiros a tiranos. Coisas da existencia humana.
Jamais deixei sem resposta comentarios feitos nesse blog. Muitas vezes, a propria resposta virou um post. Na minha opiniao, no singelo momento em que decidi publicar (tornar publico, vale lembrar) o que eu penso, procuro estar consciente de que outras pessoas lerao e, mais ainda, poderao (e deverao) emitir as suas proprias ideias sobre o tema, muitas delas contrarias a minha. Assim crescemos. Em meio as diferencas, aparando arestas de encontros muitas vezes nao muito bons. Revelando-se e sendo revelados, inclusive em nossas contradicoes.
Mas, infelizmente, nem todos os blogueiros pensam assim. Pois, reinem em seus imperios de certeza! E vivam na sua suposta paz. Amem!
Diga, pense, fale...:
Sexta-feira, Janeiro 06, 2006
Posted
10:07 PM
by ROBERTO MAXWELL
PELÍCULA NÃO-FILMADA # 90
ANA CAROLINA E O TORTUOSO CAMINHO EM DIREÇÃO AO ESPELHO
Capa da Veja: "Ana Carolina revela: sou bi, e daí?". Vivemos numa cultura das auto-definições. É politicamente incorreto dizer o que se pensa que o outro é. Então, finjamos surpresa acerca da suposta revelação feita pela cantora, uma das maiores vendedoras de discos na insossa cena musical mainstream brasileira. A cantora surgiu com sua voz potente cantando uma música poderosa chamada 'Garganta'. Era pop de qualidade e sua ambigüidade vocal e performática logo atraiu o público gay, sobretudo as meninas. Nascia mais um ícone gay? Embalada pelo sucesso da canção, Ana Carolina ultrapassou o gueto e conquistou as rádios e fãs de todas as camadas. Virou sinônimo de música pop de qualidade ou de uma MPB renovada. Nesse meio-tempo, a pergunta que não calava era sobre a sexualidade da cantora. No fim de 2005, a moça resolveu dizer o que todo mundo fingia que não sabia. E não podia ter sido mais reveladora.
Se ainda existe que vai no camarim parabenizar Ana Carolina por sua coragem ao cantar que 'gosta de homens e mulheres', há um problema sério com os fãs da cantora. Não há nada que me faça acreditar que, em algum momento, qualquer dos inúmeros espectadores dos shows da cantora duvidasse de que sua sexualidade não era absolutamente heterossexual. Mas a entrevista de Ana Carolina à Veja revela muito mais do que a suposta sexualidade da cantora. Abre o jogo sobre uma geração que, por trás de uma postura declaradamente moderna, é bastante conservadora quando o assunto é sexualidade. Uma geração onde sexo pode não ser mais tabu, mas ainda é um jogo de cabra-cega, onde as pessoas são apenas espaço de experimentação e onde as atitudes são apenas para ser vividas sem pensar nas conseqüências, onde tudo é transitório e não importa se as coisas são, bastam que pareçam ser.
Com isso, tudo o que é passa a gerar medo. SER homossexual é assumir riscos sociais. É correr o risco de ser demitido do seu trabalho, de ser rejeitado por sua família, de ser espancado na rua. Assumir que a homossexualidade é expor-se a esses riscos, aparentar ser gay não exclui ninguém do grupo, mas cria uma falsa tranqüilidade e uma responsabilidade social a menos. Assumir-se bi ou homo sem levantar bandeiras: esse é o ideário da cantora, que provocou os movimentos de luta pela equivalência de direitos entre gays e heteros. Isso não é uma postura inocente. É um ato pensado, um ataque premeditado. O movimento gay não é perfeito. Aliás, comete erros, muitas vezes primários. Está aí para ser criticado também, mas jamais para ser considerado inútil. Pelo contrário, a luta pela igualdade de direitos no Brasil andou a ritmo acelerado nos últimos anos. Mas, isso não é importante para Ana Carolina. Para ela, que teve tantas oportunidades de falar sobre sua sexualidade e negou todas elas, o que vale é expor-se na capa de Veja, no momento em que sua carreira já está consolidada, e dizer uma velha novidade. Todo o mais não parece ter importância. Uma lástima porque, a parte sua música sem nenhuma relevância cultural ou artística, o que mais uma mulher andrógina poderia causar de frisson no entorpecido público consumidor musical do Brasil?
Diga, pense, fale...:
Posted
1:27 AM
by ROBERTO MAXWELL
PELÍCULA NÃO-FILMADA # 90
OS DEZ FILMES QUE MAIS ME MARCARAM EM 2005
O site Almanque Virtual me pediu. O Jaime Biaggio também (a mim e a todos os milhares de leitores do Globo On Line). Eu, sempre relutante a fazer listas, decidi escrever os 10 filmes que mais me marcaram em 2005 e os três que mais me decepcionaram. Algumas linhas curtas de justificativa, somente para confundir. Lá vão:
TOP 10
1.NINGUÉM PODE SABER (Dare mo Shiranai), de Hirokazu Koreeda
É pouco qualquer espaço para explicar a saga das crianças sem família que expôs o Japão e que os japoneses odeiam!
2. CASA VAZIA (Bin-jip), de Kim Ki-du
Silêncio e movimento num filme poético.
3. A QUEDA! - AS ÚLTIMAS HORAS DE HITLER (Der Untergang), de Oliver Hirschbiegel
Um dos maiores thrillers históricos de todos os tempos, produzido longe da terra dos thrillers históricos. Brunio Ganz mostrou o que um ator é capaz de fazer por seu personagem.
4. DESDE QUE OTAR PARTIU (Depuis qu'Otar est Parti...), de Julie Bertucelli
Delicada história de reencontro sobre os refugos humanos que nós do Terceiro Mundo nos tornamos.
5.THE BROWN BUNNY, de Vincent Gallo
Sinal dos tempos: dismitificou o cinema como arte coletiva. O longa de um homem só. Solidão na teoria e na prática.
6. TARTARUGAS PODEM VOAR (Lakposhtha hâm Parvaz Mikonand), de Bahman Ghobadi
Se DESDE QUE OTAR PARTIU não esclarece sendo delicado, TARTARUGAS PODEM VOAR esclarece perturbando.
resenha
7. OLDBOY, de Park Chan-wook
Thriller perturbador sobre vingança. Inquietante do começo ao fim.
8. JOGOS MORTAIS (Saw), de James Wan
Da mesma safra de OLDBOY. Cinema esquema antigo, sensações sendo geradas atéo limite do perturbador.
9. BENDITO FRUTO, de Sergio Goldenberg
Saudade da comédia de costumes popular. Faltou uma Globo Filmes para BENDITO FRUTO ser o lançamento nacional do ano.
10.CAMA DE GATO, de Alexandre Stockler
Só erra quem tenta acertar. Cheio de erros, mas corajoso e desafiador. Bom cinema nunca foi sinônimo de perfeição e, sim, de coragem.
resenha
Decepções
1. KING KONG de Peter Jackson
Quem esperava ver o King Kong plagiando o ursinho da Coca-cola no lago gelado?
2. A VIDA AQUÁTICA COM STEVE ZISSOU (The Life Aquatic with Steve Zissou), de Wes Anderson
Quem viu até o final me conta o que aconteceu?
3. AS FILHAS DO VENTO, de Joel Zito Araujo
Boas intenções não fazem um bom filme. Faltou coragem.
Lancem as pedras!!!
Diga, pense, fale...:
Quarta-feira, Janeiro 04, 2006
Posted
8:15 PM
by ROBERTO MAXWELL
PELÍCULA NÃO-FILMADA # 89
VÁ DE RETRO...
Dedicado aos amigos Marcos Takeda e Hamilton Oshiro e ao admirado Walter Salles
Ela vem e a melhor coisa que você pode fazer é chutá-la pelo rabo. Às vezes, são necessárias palavras e atos que nos façam focar em um caminho onde ela não consiga entrar. Amigos, daqueles cuidam da gente mesmo quando se está chato de galocha, são essenciais nesse momento. E esses dois... Obrigado por tudo. E Walter Salles? Bem, Salles é detestado pela 'galerinha' alternativa. De verdade. Por mais que ele seja talentoso e coerente como diretor, ele tem um defeito (para a 'galerinha'): ele é rico! Mas Salles me ajudou a chutar a bunda dela. E foi numa pequena entrevista ao jornal fluminense O GLOBO do dia de hoje. Uma pena que eu não possa linkar a página e nem reproduzir o conteúdo do que ele disse. Mas, Salles fala de cinema com uma paixão que acende o sonho em qualquer coração. E o meu fogo, abaixadinho por que ela resolveu bater à porta, voltou a brilhar de novo. Gracias, Salles. Thanks, Marcos. Arigatou, Hamilton. Vocês três botaram ela para correr.
Diga, pense, fale...:
Posted
7:48 PM
by ROBERTO MAXWELL
PELÍCULA NÃO-FILMADA # 88
ELA VEM SE APROXIMANDO...
Quando você menos percebe, ela se aproxima. É rasteira e silenciosa. Ocupa maliciosamente os espaços que você, sem querer, deixa vazios. Basta qualquer pequena frustração ou erro ou impotência momentânea que ela te transforma num incapaz.
Diga, pense, fale...:
Sábado, Dezembro 31, 2005
Posted
4:36 PM
by ROBERTO MAXWELL
PELÍCULA NÃO-FILMADA # 87
TEMPORADA NO BRASIL
Pois é, amigos, eu acabei de chegar de uma longa temporada de 3 dias no Brasil. Calma, não estive na terra de Tati Quebra-barraco incógnito, como aqueles artistas famosos. Eu estava em Hamamatsu que, apesar de se localizar no litoral central do Japão, mais parece uma sucursal bizarra do Brasil. Excluindo os problemas de praxe que os compatriotas de Luís Capucho vivem, Hamamatsu não deixa a dever a nenhuma grande cidade do país auriverde, sobretudo em quantidade de brasileiros na rua. Como os japonês são, de um modo geral, silenciosos, a língua mais ouvida nas ruas centrais de Hama é a Última Flor do Lácio. Se não houvessem tantas máquinas a declamar a mais famosa poesia japonesa - "irashaimase" - pelas ruas, eu era capaz de jurar que, realmente, tinha sido transportado para um limbo do Brasil.
Minha longa estadia em Hamamatsu está até agora jogando questões em minha cabeça. Identidade tem sido o meu grande tema desde que me propus a compartilhar idéias com as pessoas, quer seja através de filmes ou dos textos que publico nesse blog e em outros lugares. Apesar de aparentar ser o campeão das certezas, a cada letra que eu escrevo, a cada segundo que eu vivo, a cada impulso neuronal tudo parece cada vez menos claro. Minhas certezas são, na verdade, hipóteses em teste e quando eu as afirmo tão categoricamente é porque espero que alguém as refute no mesmo nível. A maioria das pessoas não compreende e se cala. Mas, quando ocorre uma resposta, vale a pena. É bom ser desafiado a repensar idéias.
Desde que cheguei no Japão venho recolhendo impress?es de estrangeiros, sobretudo brasileiros, acerca do país. De um modo geral, as pessoas são desalentadoras e suas opiniões contrastam fortemente com aquelas que eu venho formando desde que eu cheguei aqui. Inconformado, sigo tentando entender como é o raciocínio dos imigrantes que aqui vivem. No entanto, ao sentir-se desafiados, eles fogem de embarcar numa discussão mais árida. No fundo, não consigo entender porque boa parte dos brasileiros que aqui residem detestam o país. Ao passar por essa longa estadia em Hamamatsu, algumas portas se abriram.
Nunca presenciei uma cena de racismo ou xenofobia aqui no Japão. Na verdade, eu posso até ter passado por alguma situação desse tipo, mas meu conhecimento de japonês não foi suficiente para que eu absorvesse o ataque. (Hoje, aliás, eu provavelmente vivi algo que possa ser reflexo de algum tipo de restrição a estrangeiros. No trem lotado, uma jovem se recusou a sentar-se do meu lado. Quando eu me levantei, ela sentou-se em meu lugar. Enquanto isso, uma outra menina me paquerava do outro lado da composição.) No entanto, um dia inteiro com um dos meus novos amigos foi esclarecedor acerca de algumas coisas. Ele, apesar de não ter planos de voltar a viver no Brasil, às vezes se sente cansado de viver aqui. Um dos motivos é o preconceito contra estrangeiros. No feriado nacional, grupos radicais nacionalistas fizeram manifestações pacíficas e esvaziadas pelas ruas. Apesar de ainda não existirem conflitos físicos como na França e na Austrália, há no Japão um sentimento nacionalista que se sente ameaçado pela presença de estrangeiros no país.
Brasileiros, por sua vez, me parecem pouco adaptados à vida fora do país. Ao que parece, o sentimento de vitimização, comum aí, veio enraizado para cá. Não há dúvidas da complexidade que é viver no Japão. Mas, tenho a hipótese de que os brasileiros fazem pouco para adaptar-se ao modus vivendi da sociedade japonesa. Há uma série de regras sociais simples que brasileiros em Hamamatsu são vistos burlando todo o tempo. Tratam-se de coisas que não ferem a dignidade de ninguém e que até são comuns no Brasil, como falar alto ou usar o telefone celular em ônibus e restaurantes, mas que para os japoneses são regras de ouro no convívio social. Um lado meu se sente incomodado com essas atitudes desleixadas de alguns brasileiros. Outro fica se questionando se não se trata de uma atitude revolucionária, uma mudança de comportamentos. Honestamente, se isso provoca ruídos de relacionamento não acho que seja boa idéia. Na minha cabeça me passa aquela idéia de que devemos nos incluir nas regras da casa que visitamos. Mas, se brasileiros produzem e pagam impostos, não têm o Japão como sua casa? Qual é o limite entre as regras de boa convivência e a imposição de valores? Não sei explicar.
"Hamamatsu não representa a realidade do brasileiro no Japão", afirmou categoricamente meu amigo, apesar de ressaltar que na cidade e em seu entorno vivem cerca de 20% dos brasileiros que imigraram para o Japão. Na verdade, a generalização é um risco que se corre quando se está tentando compreender algum fenômeno. Aliás, a própria tentativa de compreensão (ou o conceito de fenômeno) não seria uma forma de enquadrar a realidade em categorias? Isso invalida o pensamento? Creio que não, mas temo criar generalizações fáceis e pobres de conteúdo crítico e auto-crítico. Pela primeira vez desde que cheguei me senti completamente inabilitado para falar de imigração brasileira no Japão. Pensei em desistir do tema. Brasileiros e japoneses são um mistério. E quando o assunto envolver as raízes comuns entre os dois povos, tudo parece muito complicado. Por um lado, o Japão me parece estar fazendo um esforço governamental no sentido de incluir os brasileiros em sua fechada sociedade. Por outro, me parece que os brasileiros não querem ser incluídos, porque pensam no Japão como algo transitório. O esforço de inclusão do governo do Japão, por sua vez, parece não-representar o japonês médio que, no entanto, não se manifesta de forma clara sobbre o assunto. O brasileiro, por sua vez, embora não veja no Japão um lar definitivo, está sempre fazendo movimentos pendulares e, cada vez mais, passam mais tempo morando aqui. A presença de brasileiros no mercado de trabalho japonês é uma tendência já firmada e que só vai se acabar quando o houver outra Revolução Tecnológica-industrial. Como conciliar essa relação é que é o mais desafiador. E tem que ser algo que parta de ambas as partes. Nesse balaio que eu quero me meter. Será que eu sou capaz?
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No mais, um feliz 2006 para todos os leitores desse blog. Muitas realizações e conquistas no ano que se inicia para todos nós e energia para superar as adversidades.
Diga, pense, fale...:
Quinta-feira, Dezembro 29, 2005
Posted
11:29 PM
by ROBERTO MAXWELL
PELÍCULA NÃO-FILMADA # 86
WHO CARES?
Estou sentando, lap top aberto, em meio a um restaurante cuja parte principal reproduz a cabine de um trem de luxo, daqueles de filme europeu dos antigos. Preferi ficar do lado de fora da cabine, fazendo o tempo passar até o Takeda sair do trabalho. Vim ontem para Hamamatsu comemorar o aniversário de um novo amigo. Saco cheio de Shizuoka e com o dinheiro na conta, vim tirar um pouco a paz dos que trabalham. O restaurante se pretende de luxo. O fato é que o único luxo é poder comer livre pagando pouco menos de 1600 ienes. A comida é uma bosta, mas os pedaços de hambúrguer liberados fazem valer a pena. Num país onde a carne é vendida em finas fatias, tipo bacon ou salaminho, isso é o que se pode chamar de abundância. O Ano Novo está chegando e eu, mais uma vez, não estou preparado. Acho, aliás, que devo ter nascido prematuro. Nunca me sinto pronto para nada, estou sempre em processo...
Eu ia passar o Ano Novo em Tokyo. A grana escasseou e a companhia está isogachii (ocupada) demais. Tenho medo de ir a Tokyo sozinho. Não sei o porquê. Larguei tudo, vendi tudo o que tinha, deixei amigos, família e um amor. Mas, tenho medo de ir a Tokyo sozinho. Ainda não sei o que vai ser do Ano Novo. Talvez eu passe com uns outros colegas estrangeiros sem família. Dizem que há uma festa em Shimizu para os desterritorializados. Estou dentro E parece que o gigante alemão também.
Ontem mostrei o filme para algumas pessoas. Digo, mostrei a imagem montada. Senti que não lhes faltou a respiração. Uma das meninas teve tempo de ler a marca do meu computador que fica escondida na parte inferior da tela. Está uma merda! Falta vida, a imagem montada significa absolutamente nada. O objetivo do filme era, de certa forma, esse. Mostrar o cotidiano, que nada realmente acontece. Mas, já fizeram isso. Não causa mais impacto e, honestamente, qualquer coisa filmada ganha importância, assim como qualquer palavra escrita. A morte do neo-realismo (e da poesia concreta) está na sua própria filosofia. A idéia de desmitificar o herói na película só o transforma em mais herói.
Estou pensando no som para salvar o filme. Assisto uma, duas, três vezes e me ponho ali, naquele mesmo lugar. Penso todas as minhas questões, tento inseri-las na imagem. Como é mais fácil fazer isso escrevendo! Queria fazer um filme que me expusesse como intelectual, que expusesse minhas indignações com o Brasil e minhas questões de identidade nacional. Não queria ser óbvio. Tampouco complexo. Quero um filme que tenha idéia e sentimento. Mas, parece que eu só sei esbravejar, vociferar!
Enquanto eu fico remoendo DEKASSEGUI, me surge uma idéia para um longa. Esses dias, meu novo amigo japonês me apresentou um filme chamado TARCH TRIP. Trata-se de uma película japonesa em que o protagonista me pareceu uma câmera que sai com jovens amigos gays a procura de algo. Não assisti o filme ainda. Espero fazê-lo em breve. Tenho uma cópia. Mas, a película me despertou um desejo irresistível de colocar uma câmera na mão e meia-dúzia de amantes do cinema e sair por aí filmando. Impulso adolescente, podem pensar. Mas, nunca me senti tão livre para filmar como aqui no Japão. DEKASSEGUI foi feito assim: juntar os amigos e partir para a rua. De bicicleta. Queria ampliar essa experiência e entrar fundo na vida dos personagens. Trabalhar com atores que carregassem o personagem debaixo do braço e o tirassem assim que o keitar tocar. ¿Estamos passando aí, vamos filmar agora¿. Trabalhar sem roteiro fechado, com os atores construindo as falas no processo. Falar de solidão, por que não? Mexer com os instintos...
Nada disso é novidade. Já fizeram isso. Aliás, me lembrei do livro da Angélica Coutinho, onde a autora relata como o David Neves adaptou ¿Lúcia McCartney¿ para o cinema. Ele trabalhava com o conto à mão e um fiapo de roteiro. Dizem que o resultado não é dos melhores mas, honestamente, seguindo o espírito do Cinema Marginal, ¿who cares?¿. Festivais de cinema buscam aquilo que ninguém gosta e o público quer ver o King Kong imitar o ursinho da Coca-cola no filme multimilionário do Peter Jackson. Who cares?
Havia um professor na faculdade de cinema que era bastante sincero. Enquanto a gente se preocupava com a fotografia do filme, ele queria ¿queimar¿ o negativo. ¿Who cares?¿, dizia em bom português, ¿ninguém vai ver essa porra mesmo!¿, encerrava ele, talvez o maior filósofo do cinema brasileiro contemporâneo. Vou comer sobremesa que é o melhor que eu faço.
Diga, pense, fale...:
Terça-feira, Dezembro 27, 2005
Posted
11:44 PM
by ROBERTO MAXWELL
PELÍCULA NÃO-FILMADA # 85
SOBRE UM EDITOR ESTREANTE...
Ninguém se lembra do editor na hora de falar bem de um filme. Eu, particularmente, sempre tive maior respeito por eles e aprendi muito sobre cinema os vendo trabalhar. Nunca tive muita paciência para o trabalho de editar. Minha regra era iniciar a edição com o editor até sentir que ele dominava o filme a ponto de conseguir trabalhar sozinho. Esse sistema é inaplicável quando o assunto é documentário. Daí eu ter passado tanto tempo com editores, construindo o discurso dos muitos documentários que eu fiz. Esse "estágio" foi fundamental para a minha estréia como editor, nesse novo DEKASSEGUI, cujo primeiro corte finalizei ontem à noite, um pouquinho antes de dormir. O primeiro teste eu fiz hoje pela manhã. Apresentei o corte ao Goto, o meu diretor de fotografia. Ele é editor e aprovou sem ressalvas. Quer dizer, deu algumas sugestões estéticas, mas a montagem em si foi aprovada.
Estou usando o programa iMove do iBook que eu comprei. Os computadores da Apple têm essa vantagem sobre os PCs: estão preparados para que o usuário comum mexa com música e imagem de forma semi-profissional. Claro que os programas são cheios de limitações comparados aos similares profissionais. No entanto, o que se vê é a maioria dos artista utilizando a limitação de forma estética. Aliás, isso nem é novidade. Todo mundo fez isso quando não estava no mainstream, de Glauber Rocha a Nirvana. E revolucionaram as linguagens de suas artes. Perseguindo essa filosofia que eu topei o desafio de fazer o filme aqui no Japão com a galera do cineclube da Shizuoka Daigaku. E editar, longe de ter sido uma escolha, foi questão de sobrevivência. Confesso que quase desisti do filme quando o Goto me disse que não iria editá-lo. Mas, nesse momento, meu guru Rafeek apareceu na minha mente. Rafeek é um cara especial na minha vida e, talvez sem-querer-querendo, assumiu esse espaço de guru na minha vida. Uma de suas falas mais importantes, daquelas que sempre aparecem quando o herói está em perigo, diz mais ou menos que o único limite que temos é aquele que nos impomos. Não editar só seria impossível se eu assim o quisesse. Daí parti para cima do filme como um lobo e em poucas horas já tinha o tal primeiro corte que eu vos falei.
Agora, o trabalho é me debruçar nesse corte e começar a pensar na edição sonora. Aí começa um outro desafio.
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Segunda-feira, Dezembro 26, 2005
Posted
9:08 AM
by ROBERTO MAXWELL
PELÍCULA NÃO-FILMADA # 84
QUEM MADRUGA, DEUS CEDO AJUDA... QUEM AJUDA, DEUS CEDO MADRUGA...
Acordei cedo hoje. Devia ser seis quando eu já rolava na cama. Quando liguei o computador eram sete. Tinha ido deitar cedo, depois de um dia cansativo de trabalho, de sair à francesa de uma festa e torrar os neurônios tentando focar minha vida afetiva em algum caminho. Desde que eu cheguei ao Japão venho sendo desafiado pela minha forte pulsão sexual. Depois de dois ou três encontros casuais com brasileiros tão fáceis como eu, decidi dar uma parada para abastecer o coração. Não sou contra o sexo livre, não diminui ninguém ter inúmeros parceiros. Mas, saí insatisfeito de todos os encontros furtivos que tive aqui no Japão. Aliás, ainda no Brasil, achava um desperdício passar uma tarde inteira de sexo com um garoto inteligente e bonito e, depois, ele se retirar para sua casa. Pouco antes de vir para cá, eu ainda conheci um carinha bem especial. Foi um encontro apenas, mas ele se faz presente até hoje com seu carinho e amizade mesmo estando tão distante. Ele sonha com o dia que eu voltar para o Brasil para a gente dividir a vida. Eu sonho em não voltar para o Brasil. O amor é um sonho distante e pouco objetivo para mim.
Ontem, dia de Natal, foi organizada em Hamamatsu uma festa da comunidade brasileira chamada Brasil Natal, onde eu tive a oportunidade de viver algumas coisas. A mais estranha delas foi encontrar pessoas que eu conhecia apenas pela net num ambiente público, onde elas precisam representar personagens diferentes daqueles que apresentam na virtualidade. Uma dessas pessoas acabou se tornando um grande amigo. Ele lê o meu blog com freqüência e eu nem tinha idéia de que essa página tinha esse alcance. Também comecei a pensar nisso. Afinal, o que está dito aqui são as minhas idéias e mais profundos sentimentos acerca de tudo. Se eu não posso chamar isso de um diário íntimo, digo que se trata de um livro muito aberto. Na verdade, escancarado.
Nessa festa, eu trabalhei como voluntário numa pesquisa da ONG Living Together que produz campanha de prevenção ao HIV/AIDS e outras doenças sexualmente transmissíveis. Eles aplicaram um questionário para saber algumas idéias que o brasileiro têm acerca do contágio pelo HIV. Aproveitamos a festa que se realiza dentro de um certo comercial em Hamamatsu para fazer a enquete. Hama, como os brasileiros chamam carinhosamente a cidade, é uma das maiores concentrações de brasileiros no Japão. Isso se evidencia não apenas pelos dados ou pelos sons do português nas ruas, mas pelos inúmeros cartazes escritos na língua de Pessoa afixados em lojas, nas ruas e estações de trem e nas inúmeras lojas de produtos brasileiros ou especializadas em serviços para essa comunidade. Fiz inúmeros contatos, inclusive profissionais. Mas, o mais rico foi conviver um pouco com os brasileiros locais. Um pequeno estágio para iniciar a minha pesquisa acadêmica e fílmica.
No entanto, o mais importante que ficou foi um desejo de estar com alguém. Desde que cheguei aqui, estou num estado de euforia que não me cabe mais. Feliz por ter deixado o Brasil, mesmo que por um tempo. Feliz porque me sinto valorizado e desafiado. Feliz por realizar um sonho. Mas, o frio acentuou uma pequena tristeza: o fato de não ter com quem compartilhar intimamente esse momento tão rico. Conheci um belo casal, que compartilha sonhos e ideais juntos. Fiquei feliz porque a minha idéia de amor existe também entre homens. Não é somente aquele tipo de coisa conservadora de formar família ou o famoso refrão sertanejo - "entre tapas e beijos" - que faz das delegacias uma extensão de muitos relacionamentos afetivos gays e hetero. Também senti cada vez mais distante ter um brasileiro assumindo esse posto. Quase todos os brasileiros que eu conheci aqui estão perdidos, em um outro momento em suas vidas. E os japoneses? Bem, os japoneses estão em todo lado, escondidos para mim, em seu jeito de ser reservado. Penso que no silêncio deles e por trás de seus olhinhos apertados, pode estar alguma surpresa e, quem sabe, uma possibilidade de concretizar algo que eu não vivi no Brasil.
Novas fotos do Natal em Hamamatsu aqui.
Diga, pense, fale...:
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